terça-feira, 24 de janeiro de 2017

75/76

Fui vivendo e cheguei aqui.  Aos 75. Este ano, 76.
As descobertas, em mim, são muitas. E cada uma, grande surpresa.
A maior, a mais forte é a vontade de dar.  Não no sentido chulo que os homens dão à palavra, mas no sentido de entrega, de dar aos outros, especialmente a quem amo, presentes  únicos.  Todo ser humano é único. Portanto, o que dou de meu interior, é único, não tem igual. Original.

Descobri isso faz pouco. Quando JG me rifou, desapareceu, há dois anos, achei que tinha sido um coelho que ele abatera com alguma dificuldade. Porque, depois, quando veio o descaso, ou sumiço, ou o que tenha sido, eu comecei a lembrar episódios.  Era para seduzir, conseguir me derrubar. No fim conseguiu.

E conseguiu porque, paradoxalmente, AJ, contando sobre ele, foi alimentando uma chama, uma fagulha, que vivia desde muito na minha imaginação. Sonho: AJ me excita e JC me faz sexo.  Besta, mas é o que me passava pela cabeça, pelo mais íntimo, pela imaginação que não tem censura. E assim foi crescendo esse sentimento que JG fez o favor de me revelar quando aplicou na minha boca aquele beijo inesquecível.  E que foi capaz de repetir.

Mas a alegria de dar ainda não estava clara para mim. Demorou.  Demorou 13 quilos a menos, uma tristeza e angústia de quebrar qualquer saúde.  Mas, a minha, não quebrou.  Para minha surpresa resisti, calada, sem ataques histéricos e sobretudo, nem eu sei como, sem que AJ percebesse nada. Consegui manter o carinho por ele. Não, o amor e paixão que tinha por ele, já vinha se modificando, se transformando, sublimando e tornando-se alguma coisa que continha compreensão, não aceitação. Compreendi as carências dele, um pouco, mas compreendi. Misturada com raiva, essa compreensão fez com que passasse a aceitar aquela ligação com a empregada, os defeitos que me irritavam e que agora são menores. O acidente e hospitalização de AJ ajudaram na compreensão. Ficou evidente a ligação com a empregada, a falta de pudor generalizada.  Entendi.

Cheguei a escrever oa JG o que sentia.  Mas quem teve pudor nesse escrito fui eu e não sei se JG entendeu. Espero que sim. Pelo menos um pouco.

O fato é que o tempo foi passando. Mais de um ano depois, meu corpo reagiu, voltou a fome, mas também tive mais controle sobre  ele, sobre meu corpo. Devagar JG foi sorrindo para mim, foi facilitando minha presença, chegou a ficar mais uma vez comigo. Então fugiu. Respirei fundo. Vi que não havia cortado um meio de comunicação. Comecei a escrever; percebi que lia. Ele escreveu uma ou duas vezes, e assim vou indo, com minhas conversas imaginárias com JG, quando digo coisas parecidas com estas que agora anoto. Mas um dia, um dia, vou  conseguir conversar mais, e contarei o que é dar, o que dou, e o que mais o coração me ditar.

Não sei o que pode ou vai acontecer. Nesta altura, nem ele nem eu temos tempo. Ele construiu uma fortaleza com aquela família que sustenta, porque não tenho dúvidas que ele sustenta, e alí ele se compraz.  Eu não consegui fazer isso para mim. Tenho o AJ, de quem gosto, desse jeito sublimado e que precisa de mim e quem jamais irei ferir.

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